Durante anos, todas as noites, ele voltava àquele momento. Àquele final de dia. Àquela estrada.
Todas as noites, em sonhos, transportava-se àquele asfalto. À prisão daquele carro em destroços.
À medida que os anos foram passando, os sonhos foram-se tornando mais nítidos. Passado algum tempo, já sentia de novo as dores por todo o corpo. Já ouvia o choro da sua filha no banco de trás. Já se recordava daquela incapacidade de a socorrer.
Do lado de fora alguém lhe falava por entre os vidros partidos e a chapa amolgada, mas aquela incapacidade de fazer com que o corpo responde-se ao pedido de socorro da sua filha era tudo o que lhe ocupava a mente.
Nos sonhos, recordava-se de como todo o carro tremia ao tentarem arrancar a porta do lado da sua filha. Do seu choro sufocante se tornar mais distante.
À medida que os anos passavam, os sonhos tornavam-se mais nítidos. Já o havia dito.
Recordou-se dos cheiros. Dos sons. De como tudo aconteceu.
Apenas uma memória se manteve constante desde o primeiro dia. O olhar da sua mulher, a seu lado, que com a espera se tornava mais e mais vazio. Os olhos castanhos que lentamente pareciam perder a sua cor.
Durante anos, todas as noites, ele voltava àquele momento. Aquele final de dia. Aquela estrada.
Todos os anos, em sonhos, tentava salva-las. Todas as noites pedia que nesse sonho, ele não tivesse o seu corpo mutilado.
Pensava que talvez, se pelo menos uma vez as conseguisse salvar, mesmo que em sonhos, conseguiria encontrar alguma paz. Retomar a sua vida que há tanto se havia afundado nas águas profundas do desgosto.
Certa noite, ao ver-se nesse sonho, tal como tantas outras vezes, foi iluminado por uma clareza de espírito que nunca tinha sentido. Nessa noite, ele sabia que estava num sonho. Que tudo aquilo já tinha acontecido. Que já as tinha perdido há muitos anos atrás.
Olhou em seu redor e era tudo tão real.
Ao entender isto, no sonho, pela primeira vez conseguiu-se soltar. Finalmente o seu corpo mexia. Finalmente estava capaz.
Puxou a sua filha da sua cadeira no banco de trás e colocou-a seu colo entre o seu corpo e o da sua mulher.
Juntou os seus rostos e pela primeira vez, pela única vez, disse-lhes Adeus.
Robin K
PS – Cuidado na estrada. Por favor. Não só com o que vocês fazem, mas principalmente com o que os outros fazem também.